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Cérebro pode definhar por falta de uso
 

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Em 2070, saberão os pensionistas dos lares de terceira idade cantar em coro as canções da sua infância? «É uma questão que me coloco», responde o neuropsicólogo Francis Eustache (Universidade de Caen). Para este perito em memória, a interrogação não é anedótica. Eustache verificou que as pessoas afectadas por doenças neurodegenerativas, como a de Alzheimer, conservam durante muito tempo a recordação das cantigas da infância, récitas e músicas ao som das quais dançaram. «Isso dá-lhes sinais para recuperarem conhecimentos de nível mais elevado. Cantar com outros pode parecer insignificante, mas, do ponto de vista terapêutico, permite evoluir para um maior bem-estar», salienta o investigador.

Os nossos descendentes talvez disponham de novas terapêuticas para fazer face ao envelhecimento. Mas, se tal não acontecer, não é seguro que as crianças de hoje estejam a constituir o mesmo capital que os antepassados. A escola já não tem o culto do «aprender de cor» e a cultura é cada vez mais fragmentária. Cada um pode forjá-la em função dos seus interesses e a memória humana é confrontada com uma revolução enorme. Com um curto-circuito de uma amplitude ímpar.

Transportadas para a Internet, as bibliotecas desmaterializam-se. Tal como os livros, os jornais e os sons: com dois cliques ou três batidas no teclado, todos ou quase todos os conhecimentos aparecem no ecrã. Na Wikipédia, o internauta pode alterar esses dados, cada um oferece a sua própria perícia para enriquecer a comunidade. Sem esperar por 2029 - data para a qual o futurólogo americano Raymond Kurzweil prevê o aparecimento
de implantes cerebrais para aumentar a memória, o ser humano ligado, destinatário e detentor de um saber parcelar, pode ter a sensação de ser um simples prolongamento orgânico da Net, que concentra toda a memória do mundo.

«Não creio que a Humanidade se reduza já a uma extensão da Net, mas o indivíduo foi recrutado para aquilo a que poderemos chamar ‘rede distribuída híbrida’, que inclui

o cérebro e sistemas de memória tecnológica », confirma Merlin Donald, professor do departamento de psicologia da Queen’s University (Ontário). Esta opinião é partilhada por Christian Vandendorpe (Universidade de Otava), que se interessa pelas consequências da extensão do hiper texto. «A Internet veio acelerar o movimento de externalização da memória humana, iniciado com a invenção da escrita», sublinha.

Vandendorpe recorda que, em «Fedra», Platão já colocava a questão deste abandono de soberania. Sócrates relata as falas do rei do Egipto, segundo o qual o deus �� oth, inventor da escrita, confundira duas coisas muito diferentes: «Não inventaste um elixir de memória, mas um meio de reencontrar uma recordação. Não dás sabedoria, mas a aparência de sabedoria». Passados mais de 20 séculos, a nova externalização da memória, com uma amplitude

sem igual, coloca questões prosaicas. Para quê darmo-nos ao trabalho de aprender, quando tudo está disponível à velocidade da luz? De que serve uma reflexão pessoal para escrever um texto, quando o «corta e cola»

a substitui com vantagem? Adquirir este hábito não é uma perspectiva para o futuro: já existe. Ao ponto de quatro em cada cinco professores se confessarem obrigados a utilizar «software» para detectar essa prática entre os alunos.

Outra preocupação, expressa pelo biólogo Antoine Danchin (Instituto Pasteur), é o risco de amnésia que pode acarretar, para o mundo da investigação, a disponibilidade imediata da fracção mais recente da literatura

científica. «Isto induz uma forma de preguiça, que faz com que nem sempre se volte às fontes», declara. Algumas pistas já seguidas são novamente exploradas, numa pura perda de tempo. E o fenómeno poderá acentuar-se, visto que, no futuro, o que não tiver sido digitalizado deixará de ter direito de cidadania.

Do ponto de vista fisiológico, irão as muletas proporcionadas pelas novas tecnologias alterar o funcionamento do cérebro? Poderá ser o caso dos taxistas londrinos, que têm de vencer três longos anos de provas intensivas até dominarem o labirinto da capital inglesa. Estudos de imagiologia cerebral mostram que os seus cérebros tinham a marca dessa aprendizagem violenta. No dia em que houver um GPS em cada táxi, a porção hipertrofiada dos seus córtexes dedicada à condução poderá ser afectada a outras tarefas.

No entanto, esta maneira de explorar a plasticidade cerebral – também observada nos músicos – é um caso extremo. No comum dos mortais, «a estrutura geral do cérebro, antes e depois da Internet, não será muito diferente», considera Francis Eustache, que se regozija por ver o córtex liberto pela máquina de esforços de arquivamento fastidiosos. «A cablagem será, contudo, modificada, sem que isso seja visível», contrapõe o psicólogo cognitivo Alain Lieury (Universidade de Rennes-II). «Dispomos de um número de neurónios fixado à nascença.

Os que não são solicitados morrem. Se não praticarmos o cálculo mental, essa função perde-se definitivamente. Decidir se queremos ou não conservar essa faculdade é uma questão social.»

Nenhum dos dois investigadores acredita nas virtudes das consolas de jogos, que se diz estimularem a memória. «É querer limitá-la a um estatuto de simples músculo, não ter em conta as suas dimensões afectivas e sociais, esquecer as motivações do indivíduo», diz Eustache, que advoga a aprendizagem de poesias. «Isso permite afinar o instrumento

que é a memória, que tem como uma das suas funções a exactidão. E também porque isso faz parte da cultura, é um bem partilhado», defende. Esta preocupação é idêntica à de Merlin Donald relativamente ao impacto social dos novos «palácios da memória», os servidores abertos a toda a gente, que suplantam as antigas bibliotecas.

Em seu entender, esta alteração da «ecologia do conhecimento» – é assim que Donald designa a forma como as ideias circulam, desaparecem ou perduram – coloca o problema do «viver em conjunto». Que recordações, que memória partilhada terá uma comunidade, quando tudo – e, portanto, nada – for acessível a todos? «Não posso prever o futuro, mas o sentido do que nos é comum já está em perigo», salienta este psicólogo, pessimista. Uma perspectiva mais perturbadora, na medida em que a essa evolução de ordem colectiva poderá juntar-se outra de ordem individual. Quando vivermos 150 anos, como alguns prevêem, terá o nosso cérebro capacidade para conservar o filme da nossa própria existência?

«O problema não é quantitativo: a nossa reserva de neurónios é considerável», responde Eustache. Qualitativamente, a situação parece mais complexa. Estudos com idosos mostram que o pico de reminiscências, aquele em relação ao qual as nossas recordações duram mais tempo e são mais vivas, corresponde ao período entre os 18 e os 30 anos. «Temos menos recordações de antes e de depois», resume este investigador.

Será que, como imagina, uma vida mais longa nos reservará outros «picos» de memória? Porque a memória nunca é estática. «Os nossos conhecimentos estão sempre a ser reajustados. São função das aspirações do indivíduo e respondem à coerência na trajectória de vida.»

 

 

 
 
   
 
 
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